12/04/2013

Assimilação

"(...) Oh, Maga! Cada mulher parecida com você trazia como um silêncio ensurdecedor, uma pausa, rendada e cristalina, que acabava por murchar tristemente, como um guarda-chuva molhado que se fecha. (...) Mais tarde, acreditei naquilo que você me contou; mais tarde tive razões para isso, pois houve Mme. Léonie, que, olhando a mão que dormira com seus seios, Maga,  me repetiu quase as mesmas palavras que você tinha dito: 'Ela sofre em alguma parte. Sempre tem sofrido. É muito alegre, adora o amarelo, o seu pássaro favorito é o melro, a sua hora é a noite, a sua ponte é o Ponts des Arts.' (Uma barca cor de vinho, Maga, e por que razão não teríamos ido nessa barca quando ainda era tempo?)"

Julio Cortázar, em O Jogo da Amarelinha

24/01/2013

Luta de leões (em um céu cor de safira)

Talvez, e só talvez, seja equivocado pensarmos que todo dia é dia de matar um leão.
Matamos sim, mas matamos um irmão, um igual, um reflexo... um obstáculo, uma raiva contida, um ciúme, uma inveja, um trauma ou tristeza... Todos os dias, matamos nós mesmos. E essa é uma luta entre deuses, meu bem... E tudo ou mais me diz que acima da vitória está a sobrevivência.




Uma selva, fechada, e o ar mais limpo que eu já respirei.
Uma mandíbula se fechando vagarosamente sobre a minha garganta, apertando, segurando, perfurando.
E com o medo mais profundo que eu já tive, eu me rendo.



Eu sou o suficiente?


03/12/2012

La Lettre


Me deitei no chão de madeira esperando que o sol se virasse pra tocar a ponta dos meus dedos. Um gato ronronava perto do meu ouvido.
Mas perdi o tino e acordei assustada com uma claridade assustadora gritando nos meus olhos marejados de sono.

Me levantei, meio sem saber onde estava e por debaixo da porta que dava pra rua, vi que alguém passava rápido, colocando um envelope na caixa do correio. Corri, mas os passos da pessoa foram mais rápidos que o meu e eu a perdi de vista. Abri a porta com um estrépido, tropecei com os pés descalços no concreto quente da rua, abri o correio com as mãos desajeitadas... E lá dentro havia uma carta, limpa... Sem nada escrito, sem remetente, sem destinatário.



E dentro dela, um papel em branco.
E tudo o que eu pude sentir foi um inesquecível cheiro de flor.