20/07/2016

Já é de manhã

Antes eu achava que a dor não era natural. Apertava meu peito como se alguém tivesse chutado meu esterno com botas de combate, doía como se eu tivesse três ou quatro costelas quebradas, uma dor persistente, latejante, debilitante. Eu até hoje não sei como conseguia ainda respirar. Doía demais.
O problema é que ainda dói. Mesmo depois dos remédios, mesmo depois da terapia, mesmo depois de passar por todos os altos e baixos da montanha russa que se tornou minha vida, ainda dói. Mesmo depois de falar sobre isso, de praguejar, de chorar e gritar desesperadamente sobre isso até que as veias do meu rosto estourassem. Às vezes eu me pego pensando que essa dor sempre fez parte de mim e isso me deixa aterrorizada. Essa é a minha dor. Ela nasceu comigo. Em maior ou menor escala ela vai morrer comigo.
Ou não?
Como se conserta um coração mil vezes partido e mil e uma vezes remendado? Como cicatrizar as fibras do coração, fazer com que elas se entrelacem entre uma batida e outra, fazer com que tudo volte a ser como era antes?...



Antes de que?
Se o meu coração se parte e se junta e se estilhaça e se emenda desde que eu me lembro? De diferentes maneiras, sendo chutado, sendo pisado, sendo apertado entre dedos desonestos ou por perdas irreparáveis, esquecimentos, substituições, raiva, impotência, ciúmes e inveja.
Como aceitar o amor se ele vem com um preço? Como amar se isso me traz dor? Como aceitar ser amada se isso se torna um fardo?

Quanta terapia é necessária para curar o medo da dor?
Quanta terapia é necessária para curar o medo?
Quanta terapia é necessária para curar?


17/05/2016

"Há no meu olhar uma ruptura por onde a loucura sempre escoa"

"Estou doente da persistência de imagens, reflexos e espelhos. Eu sou uma mulher com olhos de gato siamês que por detrás das palavras mais sérias sorri sempre troçando da minha própria intensidade. Sorrio porque presto atenção ao OUTRO e acredito no OUTRO. Sou marionete movida por dedos inexperientes, desmantelada, deslocada sem harmonia; um braço inerte, outro remexendo-se a meia altura. Rio-me, não quando o riso se adapta ao meu discurso, mas porque ele se implica nas correntes subjacentes do que eu digo.
Quero conhecer o que lá corre em baixo assim pontuado por convulsões amargas. As duas correntes não se encontram. Vejo em mim duas mulheres bizarramente ligadas uma à outra como gêmeos de circo. Vejo-as arrancarem-se uma da outra. Consigo mesmo ouvir o rasgão, a ira e o amor, a paixão e o sofrimento. Quando esse ato-deslocação de repente pára – ou quando deixo de ter consciência do som - o silêncio torna-se então ainda mais terrível uma vez que à minha volta não há senão loucura, a loucura das coisas que atraem coisas de dentro de cada um, raízes que se afastam para crescerem separadamente, tensão provocada para atingir a unidade."

(...)

"Engulo as minhas próprias palavras. Rumino e rumino tudo até que se deteriore. Cada pensamento e cada impulso é mastigado até que se transforme em nada. Quero controlar todos os meus pensamentos de uma vez, mas eles fogem em todas as direções. Se o conseguisse seria capaz de capturar os espíritos mais sutis, como um cardume de pequenos peixes de água doce. Poderia revelar inocência e duplicidade, generosidade e cálculo, medo, covardia e coragem. Pretendo dizer toda a verdade e não consigo dizer toda a verdade porque, para isso, teria de ser capaz de escrever quatro páginas simultaneamente, quatro longas colunas simultâneas, quatro páginas resultando numa, e essa é a razão porque não escrevo nada. Teria para isso de escrever em reverso, voltar atrás constantemente para agarrar os ecos e os acordes."

Anaïs Nïn - A Casa do Incesto, 1936


07/05/2016

Wistful bitch

Eu sou uma pessoa que não sabe lidar com a perda que sofreu.
Essa que é uma perda sem nome, sem tamanho e sem forma, que eu só sei que é grande demais pra ser imaginada, e que está aqui, estável, estagnada, silenciosa, decidida a ficar.
E eu me vejo num quarto vazio, cantarolando uma música qualquer, dançando enquanto observo o movimento dos meus pés no chão. E o tempo passa, e as coisas só... ficam... como estão. Não há paixão em nada, há só o som esquecido de algo se quebrando.
A pessoa no espelho ainda me olha com olhar direto, como se esperasse algo acontecer. Tem um olhar curioso e paciente. Um olhar inesperadamente sério e surpreendentemente quase desinteressado.

Quem
sou
eu?