16/05/2008

Esse, meu mais delicado Silêncio...

Lucine levantou-se da cama no meio da madrugada fria e com os pés descalços tocou o chão de pedra. Abriu muito os olhos na escuridão e tateou os cigarros e o esqueiro embaixo de seu travesseiro. Acendeu mecanicamente o cigarro, fazendo com que uma luz morna iluminasse seu rosto molhado de lágrimas, olhos brilhantes em um rosto vazio. Não sentia mais tristeza ou angústia, apenas uma voz lhe susurando "Livre-se dela".
Ergueu-se, abriu o guarda-roupa e retirou de lá uma caixa forrada de um tecido macio e multicolorido. "Boas lembranças", esboçou um sorriso que beirava o deboche. De dentro dela, retirou algumas cartas e fotos e se dirigiu até a rua gelada.

Nevava lá fora e ela era uma sombra vestida de negro diante à imensidão branca e úmida da noite. Parou-se aos pés de uma velha árvore seca, ajoelhou-se como em uma prece, e com as mãos nuas, começou a cavar devagar.

Ao não mais sentir a ponta dos dedos, achou o que procurava, o solo macio, úmido, fresco, a amada mãe terra. Cavou mais fundo até que entrasse quase todo o seu braço naquela fossa escura e depositou ali, todas as suas lembranças.

Fechou os olhos, acendeu outro cigarro, encostou-se no tronco forte da árvore e voltou-se para prestar atenção em todas as palavras que a voz sussurrava.


"Livre-se de tudo. Livre-se de cada parte dela. Não deixe restar nada, nem um resíduo, nem uma lembrança. Um simples cheiro é a semente de todo o mau. Concentre-se, seja forte. Livre-se dela."


Lucine pegou a garrafa de gasolina e depositou a metade do conteúdo no buraco, sobre as fotos, sobre as cartas. Vagarosamente deu uma última olhada em todas elas e derramou a última lágrima. Acendeu um fósforo e, como se parecesse um acidente, derrubou-o no buraco. Imediatamente uma labareda amarelo-alaranjada tomou os papéis com um forte calor e Lucine ficou ali, terminando seu cigarro enquanto tudo queimava vorazmente.

Em poucos minutos, tudo era brasa morna, que logo foi coberto de terra e neve molhada, pra ser esquecida em meio ao inverno rigoroso.


A moça de cabelos curtos resolveu ir pra casa. A voz nunca mais iria dar-lhe conselho nenhum, mas ao passar perto da ponte que levava-a à sua casa, ela a ouviu novamente.


"Leve-a embora, mate-a, livre-se de cada simples lembrança dela".


Então Lucine, em um lapso de verdade absoluta, sentiu-se impregnada daquele cheiro, daquelas palavras, daquele pedaço de lembrança. Nem todo o fogo do mundo extinguiria aquilo que se instalara na sua própria pele, em cada poro, em cada fio de cabelo, em cada olhar ou idéia. Nada a fazia lembrar... Ela era a própria lembrança.


Subiu no parapeito da ponte alta, encheu seus pulmões cinza daquele ar congelado, abriu os braços e voôu. Voôu para a correntesa escura e fria da água, voôu segura da verdade que tomava conta dela, voôu de olhos fechados para nunca mais abri-los de novo.

13/04/2008

Como um Oceano

Salgado é o sabor das minhas lágrimas noturnas, silenciosas, imperceptíveis. O soluçar que estremece o corpo, não mais altera a respiração. Pego pra mim os braços alheios e me encolho neles.
-Me aperta...
E uma lágrima quente escorre até meu travesseiro cor-de-rosa. Os braços adormecidos me envolvem em um casulo morno, me apertando até que eu prenda a respiração... Sinto meu coração diminuir, enfraquecer, quase parar... Eu sou uma criança nos braços daquele que me escolheu. Ele nem nota que eu diminuí tanto que, em pé, eu sequer toco a altura de seus joelhos. Eu sou pequena em mim. Eu susurro tão baixo que ele quase não ouve.
-Me aperta mais...
Dentro dessas palavras se escondiam muitas outras. Um senso etéreo, um toque mágico. Eu queria chorar ali pra sempre nos braços dele, adormecido. Todas as minhas palavras sussurravam no ouvido dele os meus maiores desejos... De dor, de coragem, de medo. Atrás de mim, rouca, uma voz indaga:
-Porque tu quer tanto que eu te aperte?
Imediatamente meu interior desabafou a resposta. "Me protege... Me tira daqui, me leva contigo, me arranca dessa cama arrumada e morna, me mostra como é amar sem depender, sem sofrer, sem ser sozinha, me defende de mim mesma... Por favor, me faz segura!"
Mas eu continuei ali, soluçando, pequena como uma criança, esperando e esperando, pela final intimidade, pelo toque frio da realidade no rosto e nada aconteceu. Ele voltou ao seu sono. E eu à minha doce e fingida força de adulta, até a hora em que ele foi embora, pra voltar sabe-se lá quando.

Tomei minhas pílulas, fui uma boa garota, entendi o sentido da vida.
Mas continuo esperando por deitar novamente naquele meu casulo vivo, intocável, dormente, que em contos de fadas me protegeria contra os espíritos da noite.


Meu pensamento é de que bem lá no fundo, eu permaneço esperando pela bendita intimidade sem segunda intenção e que ninguém mais poderá dar-me isso. A intimidade inocente e inebriante dos anjos.





Somos sozinhas, meu amor,
ninguém nos lê além de nós mesmas.

28/03/2008

Alles wieder

Tudo em mim canta,
eu abro os braços, tomo ar e sinto...



Sinto como se em mim houvessem mil borboletas voando livremente, fazendo cócegas na minha pele transparente, fina.
Em mim, o amor, um doce respirar e a aproximação de uma verdade absoluta, coerente, segura. Uma verdade que eu busquei em todos os lugares, mas só achei aqui, em mim, no fundo da minha mente quieta.


Tudo em mim dança,
eu ergo os braços e me deixo levar...


Dentro do meu coração apertado ainda há uma última gota de sangue, um último gosto de mel, uma última célula viva... E é como se ela tornasse tão volátil que preenchesse todo o meu corpo. Como se ela se fizesse presente em mim, viva, latejante. Um resto de coragem, um frio no estômago, algo que me impede de olhar para trás com angústia.
Em mim, o doce som de um profundo oceano, o amargo gosto do vício.

Eu, o seu vício.

O toque que cura e fere, que acalma e que agita... Todo o triunfo do dualismo, toda a bondade e a maldade... Com todo o meu entusiasmo inocente, com toda a minha vontade de ser mais... Tout nouveau.