Bebi da tua taça, mordi com força minha própria carne amarga.
E compartilhei esses sonhos e as perdas e tudo o que me fez ser assim, tão sozinha.
Estiquei a mão além da barreira doce dos desejos, toquei tua pele morna, tão próxima, tão densa.
Fechei os olhos, bati com raiva na mesa, neguei a mim mesma pra me ter de volta um segundo depois.
Abri os braços para o infinito do não pensar, para a inocência, para o ser única, para o ser humana.
"Estar" não é tão mais fraco do que o "ser". Sonhar não é tão longe do realizar.
Como eu posso ainda ter algum respeito por mim mesma?
16/01/2012
14/01/2012
Speechless
Respirei fundo mais de uma vez, pensando em não pensar. Atrás de mim algumas vozes conversavam sobre suas vidas e sobre como elas eram prósperas e cheias de aventura. Concentrada, eu sentia meus lábios em um sorriso silencioso de desdém.É claro, meus amores, um pulo desses faz com que a gente pense em tudo, em todo mundo, tome ar até que o peito dobre de tamanho e o fluxo intermitente de adrenalina faça com que o buraco de bala que tem no meio do teu coração se encha do sangue morno que tu vai espalhar no asfalto quando chegar lá embaixo. Pula, meu bem, pula. Ninguém te viu se aproximar da janela, ninguém te viu abri-la.
Eu sei que você calculou isso, e eu sei que você tentou evitar. Mas a noite estava tão doce e fresca e clara. E as pessoas pareciam felizes com suas vidas brilhantes... Eu deveria ter apagado as luzes, seus corpos brilhando na escuridão... Era isso que eu queria ter visto pela última vez. Eu não merecia aquela lua tão bonita.
Eu não senti medo, só aquela sensação de choque partindo do centro do meu peito em direção aos meus braços e pernas, estremecendo meu corpo. Eu não fiz barulho, ninguém me viu pular, e a única coisa que eu ouvi foi o vento entrecortando rápido próximo aos meus ouvidos. Nenhum grito, nenhum lamento, ninguém me impediu. E a lua cobriu-se de nuvens pra depois se revelar mais bonita e mais branca.
Um último pensamento... "Eu não me arrependo".
E meus olhos abrindo-se antes mesmo de se fecharem: "Eu não te amo mais".
07/01/2012
Colombina desolada
Ah, mas eu nunca poderia deixar de me culpar por um amor tão destruidor. Mas ele era carinhoso e havia sempre sido, até o final. Ele havia guardado minha virgindade porque achava que com a minha pouca idade eu não aguentaria seu desejo.
Eu lembro de nos primeiros dias eu senti repulsa e medo, depois raiva e medo. Depois de alguns anos, só medo e terror. Por muito tempo.
Ele tinha me tirado dos meus pais quando eu ainda era muito pequena... Eu devia ter uns 5 anos talvez. Lembro que de ter me agarrado no colo do meu pai e lembro de que na luta meus pais me deixaram e ele me levou. Lembro dele enfiando as mãos por debaixo do meu vestido e que sua mão estava suada enquanto ele resfolegava no meu pescoço. Eu sentia nojo e desespero. Lembro de em vão arrastar suas mãos pra longe do meu corpo indefeso e lembro que ele ria sarcástico com as minhas tentativas inúteis. Mas ele não fazia nada demais, nada do que poderia ter feito, apenas respirava forte perto da minha pele e mantinha sua mão parada entre as minhas coxas, aparentemente refreando qualquer coisa no seu íntimo.
Mais de uma vez vi seu rosto se encher de sombras e de quando isso acontecia ele correr em direção a alguma mulher feita, profissional, e derrubar sobre ela tudo o que gostaria de derrubar sobre mim. Ele as tratava com brutalidade, fazia com elas qualquer coisa como um estupro e no final saia correndo delas com aparente asco ou medo. E corria comigo erguida pelo braço, andando rápido sob as pontas dos pés, nunca sem ele antes deixar alguma gorjeta gorda para a mulher para evitar o porquê dele andar sempre com uma criança a tira-colo mesmo quando estava num puteiro.
Mais de uma vez eu tive chance de fugir. Mas nunca fugi. Me sentava num canto e esperava ele terminar com a garota anônima que nunca fazia perguntas. E eu nunca tirava os olhos daquele espetáculo horrendo e animalesco. Era brutal e chocante, mas eu continuava o encarando ali, sobre aquela mulher que ele me garantia que um dia seria eu. Eu não sei se entendia, mas sentia um medo que nunca vou esquecer.
Nunca havia contado nada para ninguém, é claro, mesmo porque, naquele mundo as coisas mudavam rapidamente, inclusive a minha idade e a aparência dele. O ambiente era igualmente mutante, e o dia passava para a noite enquanto tomávamos sol ou ele me levava para passear no parque à pouca luz da lua nova.
E ele trabalhava, era ator, e me lembro que em algum momento eu havia o ajudado com uma maquiagem de pierrô. Lembro que a lágrima do seu rosto era real enquanto ele me contemplava em silêncio e tristeza. Nesses momentos eu não sentia ódio ou raiva, nem terror. Eu o amava, como um homem. Lembro de olhar pra baixo nesse momento e ver que estávamos andando sobre cabeças de bonecas horrendas, com seus cabelos desgrenhados e olhos arrancados. E eu sentia o pôr-do-sol de inverno queimar meu rosto e não entendia o porque de estarmos ao ar livre... Como se fôssemos atores de rua.
E era horrível pensar como esse homem, esse monstro, havia me raptado tão pequena e me criado como sua amante desde os 5 anos de idade. Era horror o que eu sentia. E profundo desespero por amá-lo.
E foi alívio o que eu senti por um momento ao acordar, logo antes de cair em um choro profundo e inconsolável às 3 da manhã. E essa é a mais nova cicatriz encravada no meio do meu peito, que me parece que nunca vai sarar.
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