13/03/2024

do meu sangue

 Por mais que às vezes, raras vezes, eu sinta alguma inveja dos homens, é no mínimo interessante me dar conta que entre tantas coisas roubadas de nós, eles nunca roubarão o que nos une como mulheres.

Que essa tristeza arrebatadora, profunda e inevitável que se abate nos teus ombros de vez em quando seja compreendida e acolhida, e nunca remediada, porque é o que te faz sentir humana.

Que o estranho prazer morno e pacífico que é estar entre iguais seja projetado pra além do teu corpo humano e que seja compartilhado pelas tuas descendentes - no transporte público às três da tarde ou num banheiro de bar às três da manhã.

Que o nó que prende a tua garganta sem que haja nenhum motivo para além da mera existência tenha todos os motivos pra não durar mais do que um suspirar profundo.

Que o entendimento de que de todas as fêmeas da tua linhagem tu foi a que chegou mais longe, seja sempre motivo de orgulho mais do que um peso nas tuas costas.

Que o julgamento de ter encerrado o caminho do teu sangue, do teu transtorno mental e do trauma geracional no mundo não seja julgado com maldade ou desonestidade. E que as pessoas que realmente importam entendam que numa face da moeda há a liberdade em escolher ser mãe, e na outra face da mesma moeda reside a liberdade de mudar de opinião.

Que as coisas ás quais tu se dedica sejam jamais desprezadas, condenadas, negligenciadas, ignoradas, menosprezadas, rejeitadas ou esquecidas.

Que tu sempre descubra todos e novos motivos pra encontrar a si mesma entre mulheres, com todas as faces delas, com teu corpo, mente, coração e espírito.

Que tu consiga honrar teu sangue forte e louco, teu corpo biologicamente e perfeitamente funcional, tua mente assustadoramente desperta e teu coração tão livre.

Que isso aqui fique como uma prece, pra ti, pra mim, e pra tudo o que nos une. E o que quer que nos separe um dia, nos faça entender que como houve, sempre haverá algo que nos conecta.



No one will ever know the violence it took to become this gentle

23/02/2024

This is a reading

 I know, honey. I know.

It's okay, I don't know why you've feeling so burdened lately when you could have just talked to me. And even weeks or months ago it wouldn't be a surprise because I already knew back then. Why are you so taken by this unpleansant feeling of sadness and fear when you could have told me what was occuping so much of your soul?

 I know, honey. I know.

I know the anger and all the needs, the waspishness, the ugly sensation at the somach pit, the sound of glass being broken over and over again to the point of nothing else being heard when the thoughts go just inside themselves like a confusing mesh. I know the heat and the words that rush out of your lips like wild wind, like fire, like an erupting volcano, gushing like boiling blood out of a fresh wound. Like an insane race, when you run out your mouth faster than your brain. The words are not wording. The brain is not braining. And when you come out of it, it's too late.

Come here, I don't hate you.

I know you like him the same way you knew about my feelings for him before. Honey, we are a mirror of each other's soul, how could I not notice? How could you not notice? Even when you told me I was wrong, the familiar feeling, a deep gut feeling, that you were hiding the truth from me was there, and it never left. And the crumbs kept coming, and they could give all I could need to weave the webs my thoughts are made of.

I don't know why are you feeling bad.

We could have shared the suffering and the anger and the stories. Even that one could be shared like soul sisters, but you couldn't be honest. Were you afraid? Of me? Of what? Why? Do you think so little of me? That I would not handle whatever came after?

Come here, little one. Know that this is what I call "eyes with no lid". I have them since I remember. It's not a power, it's a sickness. Don't be afraid or surprised, see, this is no special skill, this is hell. And it shows me everyday how to understand people, and how to keep loving them even when I see fear, hate, jealousy and very, very ugly things. I can't undone it. And I can't take people out of their journey. I can't warn them too much, even though sometimes I know too much. The same way I know you. And I know your truth. And why it exists.

 I know, honey. I know. Don't be upset. I just always knew.



10/02/2024

BANG

What was clear, however, was that the first bullet loaded into the empty cartridge was fired, and with that one shot, everything had irreversibly turned upside down.



29/12/2023

as batalhas que as vezes a gente tem que entender que perdeu

Paixão, na maioria das vezes, é ego.
Nasce e se alimenta da projeção do que pode ser. A possibilidade do prazer no outro, apego sem freios no reflexo que se vê à frente. A atenção que falta. A completude do inédito. A felicidade na oportunidade de não saber o que nos espera.
É o não saber que exaspera. É a migalha que alimenta e sacia.

Ele foi isso pra mim. A atenção que eu já havia esquecido ter desejado há muitos anos atrás. O padrão. O padrão que me permiti perder de vista quando entendi que essa era uma batalha que não competia a alguém como eu.

Mas eu surgi na vida dele como uma boa ideia. Eu sempre fui uma boa ideia, mas assim, renovada e madura, pareci ainda mais tentadora, ao que parece. Eu pareci uma exclente teoria e eu sempre soube disso. Eu sempre fui o completo oposto de tudo o que ele me contou ter ao seu lado. Não fazia sentido no começo, mas entendi rápido que eu era o brinquedo novo que ele nunca teve e isso me tornava desejável.

Eu escolhi continuar, ciente e não idealizadora, até o ponto de me dar conta de que aquilo parou de ser um jogo aceitável de prazer infantil pra ser racionalmente e profundamente emocional. Mesmo assim eu não tinha nada a perder ou esconder e continuei.

Mas não dá mais. Perdi essa batalha e dói uma dor terna e meio pesada. Não há nada que ele possa me dar que justifique todas as más escolhas que me esperam a partir daqui se eu continuar. Não há possibilidade de migalha que compense todas as coisas reais que advém disso tudo. E eu não colocaria outras pessoas em risco emocional por uma relação egocêntrica e não recíproca. A migalha não compensa a congestão.

Eu não queria escrever isso. E no entanto eu escrevo. 

Eu queria chorar, mas é engraçado como eu choraria pelo término de algo que nunca começou de verdade. Ele nem vai ficar sabendo ou sequer vai notar, mas algo mudou profundamente em mim. A culpa não é dele, é minha por ter projetado o que poderia (e nunca vai realmente ser).



04/12/2023

sacrificial

 And here I am again, cleaning after the dust of my old self, wrapped in old addictions. The same cigarette smell, the very known parfum. The new sounds, the same music. The ancient soul of my younger self coming to tell me I knew years ago that I have no right to feel better for more than just a few seconds.

I still mourn. The old me. The friends who might be happy living their carefree life or maybe dead, who knows. The past lovers. The former mistakes. The peace I took for granted. The energy I had to read and immerse in different worlds. The fire I had underneath my skin. The madness. The time I had to take care of myself, of this broken temple, of this shattered soul, of this defected imagination.

But I still succeed, chasing after the chemicals that make me forget how fragmented I might have become. Beign delighted by the storm my mind become in itself when I let my visions run wild. But now I have a house - a home - to take care of. Very mundane problems to solve. Very tired bones to heal.

And they try to come after me. The more I am confident and tired and complex I become, the more outraged and insulted people seem to turn. Sometimes they succeed and I take many, many steps back. This is why I am here again. And again. And this place will always be my treasured den to rest.


I am the horse running alone

I am also the one who tries to tame it


I am sorry, Warsan Shire. For I am indeed terrifying, and strange, and beautiful, and even something not everyone knows how to love... But should this apply to myself even now? Even when I have lived a thousand lives?

Should I give myself to some religion or cult or, I don't know, some place where I might belong beign raw and unstable and call it faith? Waiting for the rapture, believing in something above moral and justice, some code made by men, but that I couldn't refuse because of a greater truth?

Please make me believe. Take me out of myself for I am too tired to make any decisions now. Blind me. Fool me. Give me something so I can get away from the center of this messy stage.





30/10/2020

I'm losing it

 


A sensação de que eu estou sendo a besta caçadora agora é eminente. O que eu posso fazer contra essa jovem alma é indescritível. Marcá-lo para sempre, sim, moldá-lo, despertá-lo para gostos desconhecidos, ensiná-lo à minha maneira. E deixá-lo ir nada próximo da mesma maneira que chegou. Ao mesmo tempo que temo estar sendo irresponsável e imprudente, a adrenalina de ter alguém tão submisso aos meus desejos parece falar mais alto. 

E tudo parece muito ritualístico, a mínima ideia de partir seu frágil corpo ao meio e me banquetear na sua carne morna e suculenta, roer cada um de seus ossos, sugar cada gota de suor e sangue que escorre pela sua pele macia enquanto ele, ainda vivo, me observa em êxtase. Não consigo evitar pensar no prazer que isso me traria, usá-lo até o último resquício de energia mental e física, fazê-lo pensar em nada que não seja meu nome, fazê-lo esquecer que as palavras existem e tudo o que existe no mundo sou eu e o prazer que é compartilhar a minha mera existência.

Tell me, old friend: am I losing my mind?

18/09/2020

Causas e tropeços

Em algum momento eu quis isso pra me sentir viva - a paixão. Acordar com uma mão ao redor do meu coração apertando-o conta a vontade, me fazendo suspirar, sorrir, corar. Entretanto isso veio do lugar errado porque não passa de projeção e fala tão alto sobre a minha solidão que o simples existir vai contra a razão.

Há alguns dias atrás um amigo me disse - entre outras coisas -  que eu era demais para ser tratada como uma fantasia e que eu "merecia mais", que eu merecia alguém que estivesse ao meu lado e me apoiasse 100% e isso não era pedir demais. Tenho pensado nisso desde então e quanto mais penso sobre isso - ao contrário do que eu imaginei - mais doente me sinto. Mais apaixonada por alguém que não existe eu fico e maior a frustração se torna.

Veja bem, há toda essa energia projetada em uma mera ideia de alguém que serve somente como receptáculo de uma frustração conhecida. É seguro gostar de um personagem porque toda frustração que existe em uma "relação" assim já é conhecida. Direciono meu sentimento pra um fantasma porque - a despeito da costumeira não reciprocidade - ele não pode me machucar, nem machucar ninguém por minha causa. Não há dor além da que eu posso controlar. Meu subconsciente parece ter feito às pazes com a ideia de que é muito melhor sofrer um amor impossível do que talvez se machucar por algo real. A pessoa que eu amo não pode me rejeitar se ela não existe, a lógica parece impecável.

Há, no entanto uma segunda dor crescendo ao mesmo tempo, perigosa e silenciosa. Me faz sentir um pouco menos humana, lutando pra recuperar o amor próprio e a dignidade: eu sinto que desapareço um pouco a cada dia que não sou tocada com afeto, como se existisse um propósito muito sério em "deixar uma marca no mundo". Somos animais sociais anyways, e eu tento me perdoar um pouco por ser orgulhosa, mas deus, como é difícil. E apesar da obviedade da minha mente social buscar por uma resposta rápida como se a solução pra isso estivesse em um relacionamento eu sei que não solucionaria. Há algo na sensação de não caber no mundo que também não cabe e nem se cura em abraços ou todo o afeto do mundo.

Retornamos à terapia, então, pra encontrar um caminho entre a utopia e o caos.

26/08/2020

We already know it

Todos os últimos dias pela manhã rezo para que a sensação desapareça, sem sucesso. Fujo pro banho na esperança de dar alguma tarefa para minha mente fugidia e gasto o que parecem horas sonhando acordada enquanto a água quente demais escorre corpo abaixo. Discuto comigo mesma e esqueço das minhas próprias mãos enquanto elas mecanicamente percorrem meu corpo com o sabonete.

E novamente me encontro aqui, esquecida, distraída, fugidia, infinita, caótica, humana. Não há qualquer mudança que justifique isso que não seja alguma paixão infantil arrebatadora nascida de um intenso desejo de pertencer. Nada de novo.

no entanto há tanto o que dizer, que nada é falado

é só eu, no fim, sozinha, precisando
de atenção

15/08/2020

Limerence, again


é isso, de novo

estou me apaixonando de novo

uma pequena obsessão, de novo

por alguém que nunca poderia me conhecer


Fico acordada pensando no que poderia causar esse tipo de sentimento enquanto abro páginas e páginas sobre a pessoa em questão, procurando como um viciado qualquer informação, qualquer vestígio, qualquer coisa que me faça saber mais sobre ela. Patético, eu digo a mim mesma. Rio do quanto isso tudo é ridículo. Digo a mim mesma que nem na terra 45 existiria possibilidade dessa pessoa cruzar comigo na rua. No entanto o coração bate rápido da mesma maneira. Me sinto ruborizar, fico ansiosa, choro. É isso, de novo.

O quanto isso diz sobre solidão, não sei dizer.

não importa, preciso voltar pra terapia.

13/08/2020

Zenith


Dentro da banheira com a água quase fria, enfio o rosto água adentro e grito. Um grito que sai quase sem vontade de gritá-lo, tolhido pelos remédios que me fazem sentir o patamar zero. Tento chorar e não consigo. Sinto que em outro momento eu choraria, sem os remédios choraria como uma torrente em fim e aqueceria novamente a água da banheira.

O patamar zero me faz trabalhar reclamando só o suficiente para parecer normal. Me irrito e tenho vontade de me atirar no chão e dizer "não quero" esperneando como uma criança de 3 anos. Todavia não me atiro no chão e não grito "não quero", porque o patamar zero só me faz observar o chão de madeira e me perguntar "o que eu não quero?". Nenhuma resposta me vem à mente.

Essa semana parece uma cópia da semana passada, que parecia uma cópia da semana anterior e assim por diante. Tenho certeza que semana que vem será o mesmo. E a próxima. E é difícil sair do patamar zero. Me frustro com alguma frequência em não conseguir ser o melhor possível para mim mesma, em não conseguir dormir, me alimentar, me exercitar, ou respirar, mas continuo tentando, porque o patamar zero me faz não desistir ou afundar.


no fim ainda há a dança.

dentro do meu oceano no fim sempre haverá a dança.

14/07/2020

Moonlight




Aqui os devotos entram e saem. Silenciosos acendem velas e entre suspiros fazem preces indecifráveis. Levam daqui sempre algo, um pedaço de mim, pequeno a ponto de esconder-se no subconsciente ou grande demais para caber na alma.
Eu observo seus passos silenciosos e nem sempre respeitosos pelo chão de terra. Passam as mãos pelas paredes, sentam-se no chão, ouvem os ecos nas estruturas de pedra antiga.
Ás vezes eu presencio pequenos milagres, como a maçã verde que amanheceu mordida no altar sem que ninguém a tivesse tocado. O cheiro de mel, madeira e canela no ar. Os pássaros que fizeram ninho aos pés gastos da imagem de seio desnudo no centro da caverna.

Mas vem aqui alguém incansável. Jejua e faz preces incansáveis. Dá voltas na imagem com seus pés descalços e olhos pontiagudos, incansável.

Penso que não teve suas preces atendidas, ou que deve ter muito o que agradecer. Penso que deve haver algo aqui que o fascina ou que o cega, como um começo sem fim. Começos sem fim sempre pesam nos ombros dos homens.
Penso que há algo de excitante em sua busca, como lembrar-se sempre do que havia de bom em algo, como apagar os defeitos, como lembrar-se de como é flertar com o desconhecido. Buscas pelo flerte com o desconhecido sempre pesam nos ombros dos homens.
Penso que aqui parece um lugar seguro para suas preces. Uma caverna como essa parece exigir paciência e olhos treinados para ser totalmente descoberta. Sorrio de maneira infantil com a revelação. Uma parte de mim acha engraçado que um lugar como esse possa servir para qualquer coisa que não seja um celeiro de ego, utopia e caos. Mas outra parte de mim entende.

do lado de fora ouço vento de uma tempestade que se aproxima
um lobo uiva para o que ainda se vê da lua
me arrepio unindo a pele dos pés à nuca, arrebatada

My one, when all is said and done
You'll believe God is a woman

13/07/2020

Moonchild

Faz frio lá fora e mais uma vez antes de dormir precisei ouvir aquela moça falar sobre "tudo bem ser intensa demais" como se fosse uma prece ou um hino. Algo religioso e palpável, terapêutico e curador nesses tempos incertos. Diz ela que "é violento tentar ser menos pra se caber numa relação", instantaneamente fecho os olhos e penso "amém". Ao mesmo tempo não consigo causar nada menos do que espanto, admiração e medo, o que numa fração não muito difícil de se chegar resulta em distância. Precipícios. Abismos. Me sinto um brinquedo caro demais pra se brincar, melhor deixar na caixa. Ao me tornar e melhor pessoa possível pra mim mesma eu me tornei capaz de criar conexões incríveis com outras pessoas, mas aparentemente nenhuma que queira mesmo apostar em um relacionamento. Eu sou muito pra bancar. Eu sou excessiva. É necessário confiança demais, paz demais, certeza demais em si para se estar do meu lado e aguentar o peso da minha própria intensidade.

O meu eu é exagerado. E intimida e cansa, eu entendo. É lindo, imenso, capaz de criar coisas incríveis e me faz estar no mundo de maneira inédita e intensa. Mas é inadequado e assustador.

Talvez no mundo 16. Talvez lá eu caiba.

07/07/2020

Carta aberta ao meu eu do passado



Eu te perdoo.
Te perdoo por tentar caber em caixas pequenas demais pra você.
Te perdoo por ter se diminuído até quase não restar mais nada.
Te perdoo por ter partido quando queria ficar. E por ter ficado quando devia ter partido.

Eu te entendo.
Te entendo pelos vícios que adquiriu ao longo do tempo.
Te entendo pelas mentiras que precisou contar pra sobreviver.
Te entendo por ter sido dura quando queria ser terna. E por ser terna quando queria ter sido dura.

Eu te respeito.
Te respeito pelas decisões difíceis que precisou tomar.
Te respeito por ter tirado um tempo pra si quando todo o resto pedia pressa.
Te respeito por ter imposto limites quando te pressionaram. E por ter abrido mão de alguns por amor.

mas acima de tudo Eu te amo.
Te amo por ser verdadeira às coisas que acredita.
Te amo por saber que não sabe tudo sobre tudo e por sempre estar aberta a aprender.
Te amo por sempre querer ser a melhor para si mesma, mesmo que as pessoas achem que isso é o que chamam de loucura.
Te amo por sempre tentar.
Te amo pelas desculpas que pede quando sabe que errou.
Te amo por não se levar tão a sério, mesmo quando deveria.
Te amo por estar sempre vigilante nas próprias ações e por aprender com elas.
Te amo por ser amorosa tanto quanto possível - consigo e com os outros.
Te amo por sempre tentar.

Te amo por sempre tentar.
Te amo por sempre tentar.
Te amo por sempre tentar.
Te amo por sempre tentar.
Te amo por sempre tentar.

17/05/2020

Qualquer coisa sem sentido

Eu nunca vou ser normal.
Acho que já devia ter me acostumado com isso, mas todo dia é um dia novo e eu me esqueço do que deveria ter feito já no dia anterior.
Entender coisas, aprender. Eu nunca vou ser normal.
E há algum romantismo em tentar ir contra a regra, dizem. "Normal é chato", dizem. "Normal não existe".
Então porque eu me sinto tão desconexa? Ir contra a regra nada tem de romântico ou interessante. Eu não faço isso porque eu quero ser interessante. Eu não sou como eu sou porque eu quero parecer diferente. Eu nunca vou ser normal. E dói não ser normal, dói como toda a existência dói. Dói porque a vida dói. Dói porque dói viver e é uma experiência solitária. E de experiências solitárias eu já estou cheia. Sentir e ver as coisas como eu vejo não tem nada de romântico.
mas dói mais parecer normal, me toma o dobro do trabalho e da energia. Olhar pro espelho e lembrar de aprender a ser uma pessoa menos eu. Ser menos. Ser mais estável, ser mais dócil, passar desapercebida, Me misturar até que eu não saiba o que eu sou e o que são os outros. Dói demais estar vazia. Eu nunca vou ser normal.
Eu continuo me apaixonando por pessoas que não sabem quem eu sou. Eu continuo me apaixonando por relacionamentos que não são os meus. Eu continuo sem ter com que dividir uma imensidão de coisas. Eu continuo desejando intimidade e encontrando precipícios. Continuo pintando os cabelos de qualquer cor que eu ache bonita. Continuo me misturando com pessoas mais jovens do que eu, talvez em busca de alguma adolescência que meu subconsciente ache que nunca ocorreu. Lembrar de aprender, eu nunca lembro. Eu nunca vou ser normal. E dói saber disso. Dói tanto, tanto. Uma dor solitária e triste, profunda e constante.
Da dor eu sempre lembro.
Só não lembro de aprender.
Por que dói tanto?

15/05/2020

call me Domitila


No silêncio estendo as raízes por baixo da terra morna e úmida. Estico o quanto posso os dedos e os braços, sinto os tendões alongando, as costas tesarem ao mesmo tempo que relaxam ao entrar em contato com a conhecida provedora dos meus instintos.
O meu corpo nu se enrosca nas folhas secas, nas ervas daninhas, na terra orvalhada, na sombra entrecortada pelo sol poente tépido. Sinto meus olhos fechados há horas, as pálpebras coladas, despreocupadas, distraídas, que deixam apenas a luz entrar o suficiente para me dar a passagem do tempo. Meus cabelos roçam os ombros, o rosto e as costas, fazem cócegas na minha nuca e testa e eu me divirto silenciosamente com a quantidade de sensações infantis que tenho agora. Nada disso é novo, entenda, mas me vejo aqui novamente, roçando a terra para sair de mim. O cheiro da minha pele nua se mistura ao cheiro do solo, do sol e da poeira fina, sobe ao meu nariz em lufadas e eu sorrio tentando absorver todas as sensações ao mesmo tempo. Mel, canela, cravo, noz moscada e especiarias
Eu ouço música, veja bem, eu ouço música aqui. No mais alto volume possível quase suficiente para me ensurdecer. Todo o tipo de música. Tambores, trompetes, órgãos do tamanho de prédios medievais e oboés. Tubas, pratos e liras. Saxofones e gritos em barítono. Uma tempestade nos meus ouvidos, dó maior sustentado até o limite. Me arrepia inteira e meus joelhos arranham-se escorregando no chão enquanto se abrem para que meu corpo seja tomado pela terra. As mãos em palma agarrando a terra estendem-se pra fora do meu corpo como garras infinitas tentando abraçar o mundo e tomar-lhe pra dentro. 
Nesses tempos, há a vontade de recolher o mundo em um abraço lascivo e atravessa-la no ventre, inteiro. Vê-lo curada na minha feminilidade, com a única força que pareço sentir ter agora.

10/04/2020

"Feels like [the winter] knows me well"



Existiu algo em ser abraçada inteira. Mente, loucura, momentos de fraqueza. Pele, defeitos e as lágrimas também. Inteira, como eu nunca achei que seria. Eu que sempre achei que fosse pedaços jogados por aí, braços, pernas, uma cabeça costurada num corpo sem unidade, meio perdida, me esforçando pra juntar partes vulgares sem qualquer sentido.

Existiu algo em ser abraçada inteira. Algo que eu ainda sinto falta. Lembro de pensar em felicidade, lembro de saber que acabaria em breve. Lembro também de sentir medo por saber que aquilo significava ferir de alguma forma outra pessoa que eu também amava. E que ela não me deixava entrar, que não me deixava amá-la nem abraçá-la e nem me deixar fazê-la sentir como eu me sentia naquele momento. E que eu precisei ser menos para que ela não se sentisse menos, e eu nunca pude fazê-la se sentir mais... ou ser mais.

Existiu algo em ser abraçada inteira. Lembro que nada se comparou ainda a sensação de braços darem a volta completa na minha cintura, um corpo nas minhas costas, uma mão no meu seio. Lembro que houve qualquer sensação de surpresa em um movimento tão natural encaixar-se tão perfeitamente no silêncio e na paz. Qualquer tensão se desfez. Meus comentários estranhos sobre mundos paralelos não me fizeram sentir desconfortável pela primeira vez em muito tempo e eu soube que enquanto estivesse ali, estava segura.

É clichê dizer que chovia? Chovia.

E acabou. Acabou a felicidade, a chuva, o inverno. Acabou aquele ano, acabou meu eu daquela época e a sensação de que eu seria abraçada inteira de novo.
Acabou. Como as músicas que eu ouço quando preciso de uma desculpa pra poder chorar sem me sentir estranha, porque chorar sem motivo me faz sentir louca, descontrolada, infinita, inacabada. Acabou como a versão Colors de Moments Passed de Dermot Kennedy, ou a como a minha alma saindo do corpo com a versão de Tenebrae de Miserere Mei Deus, ou Toccata and Fugue in D minor tocada no Berliner Dom pelo Xaver Varnus. Acabou como sempre acaba a versão de First Step de Interstellar tocada pelo David Robertshaw. Acabou como tudo isso vai acabar um dia. A quarentena, as paredes e o outono, pra começar um novo inverno.


It'll all be good, just hold me well

09/04/2020

Zwierzęcy

eu sou uma besta
dormindo desajeitada no inverno
deitada sobre gelo fino
acumulando grama sobre grama
de neve sobre o corpo

dentro de mim
os olhos abertos
as mãos em torno da maçã fresca

eu sou uma besta
adormecida em uma nevasca
esperando qualquer raio de sol
derretendo o rio
que corre abaixo de mim

dentro de mim
os ouvidos atentos
e as lágrimas como uma corredeira

eu sou uma besta
inerte e silenciosa
parte da natureza ao redor
invisível aos olhos do caçador

dentro de mim
a pele febril
espera que o normal nunca volte
porque o normal nunca funcionou



há algo escondido aqui
que percorre os sonhos dessa besta
liquefeito
profundo
obscuro
e que me atrai cada vez mais
pra dentro de mim
e pra fora dessa natureza

bestial

Tell me kid, you ready for winter?


01/02/2020

Bhanga

Isso é sobre a coragem e força que eu espero ter nos próximos dias e o medo que eu tenho da dor. Dor física de me sentar sobre o quadril e dobrar os joelhos pressionando os tornozelos.

Dor de me forçar a fechar os olhos tanto tempo de forma consciente ao me fazer olhar pra dentro conscientemente.

E sobre o medo do que eu posso vir a encontrar aqui dentro. Se eu olhar fundo o suficiente, o que pode vir a olhar de volta? No que eu tenho evitado pensar? Do que eu tenho fugido? O que eu tenho evitado lembrar?



Quem me aguarda do outro lado?


25/01/2020

Paciência

Todas as minhas decisões me levaram até aqui.
Sair de um labirinto, de um enigma além de mim para mergulhar no maior enigma possível dentro da minha própria mente. Tentar desenredar alguma coisa e descobrir o que fazer com todas as respostas.
Poucas são as perguntas, já.

Quando eu saí da última incógnita tomei a decisão mais madura que já havia tomado. Resolvi mergulhar em mim, correr atrás de respostas, lutar por ter uma direção que me apontasse pra dentro antes de me ajudar a apontar pra fora. E eu já não quero mais que o amor me salve.

Seguir meu coração ainda parece uma boa ideia, sempre, mas mais do que tocar a arte e sentir-me parte dela, eu aprendi que a observação ainda vale mais do que me deixar deteriorar pendurada meio torta pra esquerda em uma parede.




This, too, shall pass.




06/06/2018

The Riddle of the Sphinx



This is about the urge to belong, the urge to have means to talk about what I might be feeling.
This is about the emotional breakdown I had a couple days ago, when all I could think was I wasn't able to fall in love anymore.

My friends were asleep, I was drunk and upset, cause I knew all the reasons, all the answers, all the questions, but I couldn't stop feeling something inside of me was broke into little, pitiful pieces. And all I could hear was the mourning cry of my old self, trying to figure out what to do. I thought I was too impaired to care about another being, to look after him/her, to find myself letting my heart race and do nothing but to long after things I don't know for sure, not again, not ever. The ideia of a connection seemed so far away from me, a tired idea, a dead possibility. All I could do was mourn, mourn about this death,  mourn about the things I wouldn't be able to do anymore, without this kind of connection, without the lost possibility of it.

But then I felt this slightly change in the wind, a primitive call, something emerged from inside the very nature of chaos. A bliding flare, a delicate touch, a soft hand in my face, gliding it's fingers through my lips, making me close my eyes, embracing my waist, heating my chest. A clever move of language, a blind rapport, eyes who see me in the same level, a tricky game, a mazelike grip, a lure to my eagerness. My body and mind being allured by the possibility of being more than just a person, beign a lush beast, savage, untamed, lascivious, grotesque, bigger than life itself, bigger than the distant possibility of control.

The raw nature of the beautiful chimera, looking into my eyes and asking for permission, asking for my hands, my heart, my tired soul, promissing me an endless road to race, a bonfire to burn myself and a place to rest my doubts.

It sounds like a pulse towards destruction, towards a pile of chewed bones, a run towards the possibility of a new way to bury the sane part of me, and to scream nobody really owns my essence. A new possibility to screw everything up and take resposibility for other's persons hearts just because I'm bored and I want to know if I can do it.

Am I horny for the broken ideas? Do I crave for the trouble of being attached to a monstruous and fragile thing like this? A thing bigger than me, something I couldn't tame, sounding almost like a challenge, telling me all the things I could have, but showing me nothing about the price I'll have to pay for being devoured by such creature.

Am I digging holes in other's chests just for fun? Do I think this is some kind of universe's funny joke? A story to tell, a deep narrative that helps me sell how wild I am?