18/01/2010

O Infinito do Sem-Pensar

Eu lembro de estar escuro e que ao abrir os olhos eu apenas via a silhueta dos móveis da sala de estar. Lembro também da silhueta dela e da sombra da renda preta que ela usava como roupa intima. Lembro do perfume dos cabelos e da pele dela, cheirando a Pur Blanca e licor. Febrilmente eu me enterrava naqueles cabelos enquanto sentia a pele do seio branco dela no meu. E ela tocava seus lábios semi-abertos na curva do meu pescoço, absorvendo minha alma, mordendo meu coração suculento. E as palavras saiam sussuradas da minha boca sem que eu pensasse nelas, como uma prece.

"E eu estou aqui agora, e você está comigo como sempre esteve, e eu sinto que agora somos uma. E somos todas, porque elas estão aqui também. Eu sinto todas as que fomos e todas as que seremos, e tudo o que é sagrado em mim e em ti nos abençoam agora. E a energia que existe em tudo o que fizemos e em tudo o que desejamos até agora está em nós, o calor do meu sangue é teu e eu sinto teu gosto na minha boca."

Eu lembro de chorar convulsivamente entre o prazer e a gratidão, porque eu estava ali e era tudo o que eu sempre quis. Eu senti a devoção e o temporal abatendo-se sobre o meu corpo e senti que poderia morrer. E eu não me importava. Eu sentia o sensualismo e meu corpo pulsava, doentio. Eu sentia minha pele quente e ela pedia pra que tudo aquilo nunca terminasse.

Ao ficar consiente do meu corpo, senti que a mão dele me tocava durante o sono. Senti seu hálito rápido entrecortado no meu pescoço e a sua mão macia no meu seio.
Abri os olhos pro mundo real, e como se fosse uma criança, afastei-o delicadamente de mim, tirei sua mão do meu seio, e me aconcheguei nos seus braços enquanto ele ainda me procurava, cego. Afaguei-o até que ele adormecesse completamente enquanto contemplava o ar frio do quarto.

Do alto do guarda-roupa meus bichos de pelucia me olhavam indiferentes; Baixinho eu me amaldiçoava por ter apenas sonhado.

14/01/2010

Minha Loucura anda estranhamente silenciosa.
Eu a adotei há um tempo atrás, ela andava a me pedir isso há muito tempo, puxando convulsivamente meu vestido. Deixei ela adentrar minha casa, porque afinal eu também me sentia muito sozinha e ter compania não poderia ser assim tão pior.
Nesses últimos dias ela se senta aos meus pés enquanto eu desenho e escrevo dia e noite. Ela também não está a falar muito ultimamente e brinca sozinha com seus bonecos de madeira. Ouço-a cantarolar baixinho para eles se prestar bastante atenção.

Ando preocupada, uma Loucura quieta é pior do que uma loucura barulhenta.


13/01/2010

De uns pedaços espalhados por aí

[...]

Entretanto nunca me senti tão viva, nunca me senti tão próxima do chão;
É tudo isso que me conecta ao mais forte de mim, de mais belo. A única parte que é minha e que não diminui. Que é de quem eu escolho ser, que é densa e profunda, que é única e cresce infinita. Sou dele e sou dela, de partes tão diferentes, de mundos tão distantes, que sinto o ar frio do espaço entre eles enquanto meu coração se estica, no céu que pinto de vermelho.

Amo de corpo inteiro, sempre, até que eu esqueça de respirar.
Dói, e a dor também é minha, e é bela.




"Não gostaria de insistir, mas a beleza dos jovens que se amam é melancólica. Eles não sabem ainda que o desejo de morte é o mais perverso, que só uma coisa os tornaria puros: roubar o fogo e incendiar a cidade." (Eugenio de Andrade)


Let's burn the city, lennavan!