14/07/2007

Fragmentos de mim, só


Nas noites de trovão e de corvos mensageiros
torno-me minha pior e melhor compania.

Insiro-me dentro de mim
E torno-me o elo de ligação com o interior secreto
da minha mente mais perversa.


Dentro do meu corpo,
giro no globo ocular e revejo o passado
Passo novamente pelo que não passei,
dramatizo as falas que regurgito pela boca dentada,
seca de sede que mato com a saliva alheia.

Tensiono-me então e mergulho em direção
aos meus desejos profundos,
em menção às minhas fantasias
sórdidas que me assolam em pecados indizíveis,
nos toques noturnos de noites que não acabam.


Tento-me com provocações sublimes e castas
de amores que me perturbam,
afino-me, texturizo-me,
ganho novas formas dentro de mim mesma,
descubro-me apaixonada pela alma
que há na alma dentro de mim,
que há na Humanidade de não ser especial.

Deito-me e espalho-me e sou forte
como as àrvores altas,
então encolho-me e fecho-me
e sou pequena como os grãos de areia no Egito,
misturada ao eterno universo de sensações,
mais uma no meio da massa indizível
de sordidez absurdamente sublime.


Eu penso neles e sou segura
como a Rainha Leoa, mãe e caçadora,
docemente concentrada na sua presa,
no seu belo pedaço de objetivo deliciosamente amedrontado,
e então recolho-me e sou eu, só,
a caçadora de borboletas correndo desajeitada
no fundo do quintal pequeno.

Me analizo, nunca me decido.
Me descrevo, nunca me preciso.
Me escrevo, nunca me defino.
Me acovardo, nunca me revelo afinal.

13/07/2007

Tão forte, tão minha

Ela me olhou com seus olhos ternos de esmeralda e disse:
"- Quando eu te levar pro céu junto comigo, nós poderemos acender as estrelas quando a noite chegar e faremos redemoinhos de vento entre as nunvens quando o sol estiver acordando..."
Naquele momento eu me senti tão pequena quanto ela, do alto dos seus seis anos e pés descalços, tão confortáveis na terra fofa e úmida da madrugada.
"- Quando você vai me levar?"
Ela continuou olhando encantada para o céu que começava a encher-se de estrelas. Então abriu um sorriso infantil.
"- Você quer mesmo saber?"
Ela não largou minha mão, nem olhou para mim. O rosto dela era redondo, despido de traços adultos, despido de maldade. Os cabelos dela eram tão longos que faziam voltas no chão. Cheiravam à própria terra e eu os havia enfeitado com flores, como ela chorosamente sempre me pedia quando me visitava. E eu adorava fazê-lo, me sentia tão parte dela que às vezes ela falava comigo sem mover os lábios.
"- Não." - eu respondi finalmente, meio perdida, meio não.
Eu olhei para o céu, na direção que ela olhava. Me sentia triste e incompleta, e ela, tão pequena, tão minúscula, adorava se sentir ínfima diante da imensidão escura. Tão segura de si, tão bela, tão minha.
"- Me leva pra casa" - Ela me estendeu seus braços esguios e pequenos.
Eu a peguei no colo e fomos dormir. Ela puxou seus cabelos que arrastavam pelo chão e enrolou-os em meus ombros, sorrindo demoradamente pra mim. Deitou-se no meu ombro e beijou inocentemente meu pescoço. Daquele jeito parecia tão criança, tão infantil. Ela gostava de saber que era assim que parecia pra mim. Um misto de amor de mulher e de filha, de mãe e de amante. A sabedoria de anos em um corpo de criança, a displicência e depudor que passava na voz e ela adorava fazer isso. Deitei-a na cama grande demais pra seu corpinho e ela pediu-me para deitar junto à ela. Aconchegou-se junto ao meu corpo, olhou nos meus olhos e encolheu-se para dormir. Eu não resisti.
"- Me conta uma história..."
Ela me olhou do jeito que as mães nos olham quando a gente lhes faz um pedido irresistível.
"- Quando eu te levar pro céu junto comigo, todas essas histórias vão fazer sentido, você vai ver..."
E eu dormi na Terra dos Sonhos, implorando pra não acordar, adorando estar entre os povos dos livros da minha infância distante.
Acordei com o cheiro da terra no quarto e um bilhete no travesseiro cheio de flores amassadas:
"Eu te amo."

Ne me quitte pas


Por mais que eu tente não ser assim, por mais que eu tente não ser má e vingativa eu insisto em tentar machucar, em tentar enfiar a faca até o final, em tentar fazer com que as pessoas regurgitem todo o sangue, toda a desgraça, tudo o que sentem, todo o ódio enterrado e cicatrizado que eu insisto em remexer. Eu não me contento com o "tudo bem", eu não me contento com o "esquece". Eu quero a verdade, e quero toda.

E por mais que eu tente não me apaixonar, mais beleza eu vejo nas pessoas, nos corpos semi-nus que andam pelas ruas, mais encantada eu fico pelas histórias, pelos gestos, pelos timbres de voz. Mais suscetível eu me torno, mais estupidamente romantica, mais vulnerável eu me sinto. Onde estão as barreiras? O muro que eu construí? A armadura de ferro que eu moldei pra mim?

E por mais que eu peça para o escuro do meu quarto não me presentear com pesadelos reais, mais eu vejo olhos assustadores me visitando durante o sono, mais problemas enfrento, mais barreiras tropeço, mais agulhas engulo, mais gatos me odeiam, mais pessoas eu machuco.

E por mais que eu tente enterrar sentimentos passados, mais rasa a cova fica, mais vezes por dia eu afundo meus dedos na terra fofa e úmida para ao menos ter o prazer de tocar a dor, de sinti-la entre minhas mãos, fria, ardente, pulsante, crescente.

E por mais que eu tente não sugar todo o afeto, todo o calor das pessoas, por mais que eu tente não amá-las eternamente por uma noite, por mais que pra mim o amor seja um grilhão sagrado, uma mordaça divina, um adereço de tortura medieval sacramentado pelos sacerdotes lunares, por mais que doa, eu não consigo me desviciar, não consigo me soltar disso, me distanciar do sofrimento, da lágrima, do cinza, do vermelho que vejo quando minha cabeça grita. Eu sinceramente nem sei se quero. Eu amo, e amo de corpo inteiro.



Nessa noite de frio, não me deixe falando sozinha, não me deixe enlouquecer com uma faca em punho, girando-a ameaçadoramente próxima ao seu peito.
Não me abandone, não me deixe, não me esqueça.
Defina-se. Me ame.