24/04/2018
The room is a lie
Meu melhor eu me trata com alguma dose de indiferença e não esconde mais o quanto está insensível aos meus rompantes de descontrole.
Olha pra mim meio de cima, com algum dó que faz questão de me mostrar, e suspira profundamente enquanto percebo evidentemente a curvatura acentuada das suas costas cansadas. Passa a mão nos cabelos e olha pra fora, além da janela, além de mim, além da própria vida e parece suspirar em busca de alguma resposta pra me dar, mesmo eu não tendo feito nenhuma pergunta. Parece que a qualquer momento vai irromper em palavras baixas, mas só suspira e torce o canto direito da boca.
Meu melhor eu está cansado do meu pior eu e de todos os outros, mas não ousa falar mais nada e tem medo de todo o resto.
Meu pior eu está naturalmente jogado no chão, numa crise infinita de lágrimas abundantes e salgadas e ameaça se afogar no mar do desespero ou na poça de lama mais próxima. Poucos são ainda os que dão ouvidos a ele, que aprendeu em algum momento que não adianta prenunciar nada que não se esteja de corpo e alma disposto a fazê-lo. Meu pior eu fica numa sala isolada dos olhos, mas próximo demais de todos os meus ouvidos.
Enquanto isso meu eu razoável senta-se em frente à escrivaninha e observa os milhares de planos, coça uma das vinte testas, faz riscos ininteligíveis sobre as pilhas de papéis sobre a mesa. Suspira de vez em quando e só faz intervalos pra tomar água e pegar alguns minutos de sol por dia porque ouviu dizer que faz bem.
E eu me encontro aqui novamente, num espaço muito curto do tempo, o lugar retornável no ouroboros, estaca zero, vazio e cheio ao mesmo tempo. Daqui eu observo as pedras no caminho e elas me observam. E daqui eu penso se ainda estou no momento de decidir coisas ou de deixar me levar até o limite mais uma vez. Se ainda há qualquer necessidade de esperar a porta do quarto abrir para que o choro lá dentro se torne real ou se eu posso só seguir não nomeando as coisas até que elas tomem nomes para si.
Vejo relâmpagos no horizonte, mas não ouso abrir o guarda-chuva enquanto não ouvir os trovões com a ameaça de atrair a chuva antes mesmo que ela se torne real. No entanto, temo permanecer aqui com a ameaça de ser levada novamente pela tormenta. Meu melhor eu me observa e aguarda, há de me tirar mais uma vez do afogamento ou me deixar afundar de vez.
17/01/2018
Breathe in, breathe out
eu sou abençoada e amaldiçoada com um cérebro muito fértil
aqui, tudo que planta, cresce
cola os galhos no teto
penetra com força o solo, às vezes com pressa e desajeitado, às vezes sutil e profundamente
essa mente intrincada nunca parece estar em silêncio
chia, vibra, fervilha, se move, se debate, sempre funcional, sempre produzindo, nunca estática, nunca cansada, sempre rítmica, sempre notável
em geral é fácil se perder nela
há tanta coisa acontecendo, que não parece nunca difícil definir os limites da diferença entre o que há aqui e o que há lá fora
nesses momentos eu me isolo de maneira inevitável, surda e confusa, hipnotizada pelas quinquilharias que eu carrego aqui, perdida entre coisas que eu não consigo nomear, porque o barulho nunca para
no entanto, há momentos de pura beleza em que há uma ponte entre o interno e o externo
em que eu consigo estender os braços pra fora
em que eu consigo tocar e ser tocada
em que uma brisa e uma luz bem-vinda invade essa caverna
em que há o reconhecimento de algo além dessas paredes
em que há o vislumbre palpável de outra possibilidade tão além de mim, mas tão perto
nesse momento todas as coisas parecem tomar um sentido e ser tomado por ele
uma forma
uma harmonia
uma razão de ser-e-estar
e todos os chiados, todas as vibrações, todo o ruído se torna essencialmente pleno e cheio de si
esse momento de serenidade, de equilíbrio
é tão raro e tão estático, que nada além dele parece fazer sentido porque as ideias de passado e futuro, de atualização do pensamento, parecem irrelevantes
as coisas que estão-e-são parecem estar-e-ser no exato ponto de evolução máximo possível para aquele momento, a cada novo momento
a máxima potência de um pensamento é o presente, que se atualiza para evoluir sempre no presente, natural, racional, sublime
nesse momento, tão raro quanto são as coisas que nos movem de verdade
algo muda, um novo cômodo se forma aqui dentro
uma transformação, uma expansão aberta à força bruta, mas tão natural quanto é o respirar
é aqui que eu me encontro agora
dentro dessa transformação
mas talvez dessa vez tenha acontecido aquele algo inédito novamente
aquele instante em que eu me dou conta da tal verdade absoluta que me toma de maneira resoluta e intensa, permanente e dolorosa (como é toda a transformação)
sobre o amor
tem sido me dito, como uma fórmula, que eu não seria capaz de amar alguém antes de amar a mim mesma
por algum motivo desconhecido, mas muito previsível, eu aceitei isso como algo imutável e invariável
todavia
foi amando outra pessoa que eu descobri que, no simples sentimento de amar, eu dispunha de todas as ferramentas para ceder esse amor a mim mesma; não há nada antes, não há nada depois (nem nunca houve). Dentro do processo de amar, há a verdade absoluta de que eu amo outra pessoa porque eu me amei primeiro, e eu me amo porque eu amei outra pessoa antes disso: uma retroalimentação sem ponto de partida ou ponto final.
Ora
se eu sempre amara com ressalvas, de maneira mesquinha e limitada/limitante, se eu amara toda a vida não somente pelo sentimento do próprio amor, mas por coisas muito irrelevantes enfiadas à força dentro do amor como a arrogância e a possessividade
como eu poderia me amar de maneira diferente?
se um amor pela metade, se um amor desonesto e incompleto, era tudo o que eu dispunha e conhecia?
era amor, sempre foi, mas nunca foi só isso
na falta do amor pleno eu sempre completei as lacunas que eu sentia nele com as coisas que me foram ensinadas como intrínsecas aos sentimentos humanos que se configuravam como complementares. O que eu não via era que eram coisas distintas que na verdade deixavam cada vez mais exposto o quanto aquele amor não era pleno, o quanto eu nunca amara de verdade, pelo próprio amor, pelo amor simples
como eu poderia me amar de maneira diferente?
como?
por outro lado
ao encontrar o amor pleno, não fora de mim, mas dentro de mim, enterrado muito profundamente, dormente e somente mal colocado, mal interpretado, quase desprezado
foi que eu entendi tudo isso
sobre sempre ter me amado, na verdade
mas ter me amado errado
porque o amor errado era o que eu tinha como amor
foi ao encontrar o amor pleno que eu descobri sempre ter tido as ferramentas necessárias para amor próprio, sobre o respeito a mim mesma, sobre amar sem exigência
porque eu me dei conta que o amor é tão somente ser/deixar livre, respeitar, e querer crescer; muito mais além disso, amor é enxergar além do superficial, é entender e aceitar que o que "é", é tão somente um degrau para o que pode ser
aceitar que eu me amo, que eu sempre me amei, só veio depois que eu consegui amar outra pessoa, de forma tão simples e tão completa que pareceu óbvio que isso nunca poderia ter acontecido se eu não tivesse desde sempre amado a mim mesma (mesmo que de maneira errada)
evoluir sentimentos bons é algo absolutamente novo pra mim nesse momento e eu posso dizer que nunca me senti tão completa e tão potencialmente destemida
isso é construir pontes, isso é abrir janelas, destruir paredes, desmontar telhados, chutar grades, derreter correntes, desfazer nós
isso é tocar e ser tocada
isso é ser intersubjetiva no processo mais elementar da subjetividade
isso é liberdade
isso é paz
i s s o é p a z
21/12/2017
That's why storms are named after people
"Do not fall in love
With people like me.
people like me
will love you so hard
that you turn into stone
into a statue where people
come to marvel at how long
it must have taken to carve
that faraway look into your eyes
Do not fall in love with people like me
we will take you to
museums and parks
and monuments
and kiss you in every beautiful
place so that you can
never go back to them
without tasting us
like blood in your mouth
Do not come any closer.
people like me
are bombs
when our time is up
we will splatter loss
all over your walls
in angry colors
that make you wish
your doorway never
learned our name
do not fall in love
with people like me.
with the lonely ones
we will forget our own names
if it means learning yours
we will make you think
hurricanes are gentle
that pain is a gift
you will get lost
in the desperation
in the longing for something
that is always reaching
but never able to hold
do not fall in love
with people like me.
we will destroy your
apartment
we will throw apologies at you
that shatter on the floor
and cut your feet
we will never learn
how to be soft
we will leave.
we always do."
— “Do Not Fall in Love With People Like Me,” Caitlyn Siehl
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