09/08/2008

...

Eu tenho fome de gente. Eu tenho fome de carne, de pele, de hálito, de cheiro.
Eu tenho sede de dor, de desapego, de tudo o que eu tomo e largo, de mim mesma.
Eu sou faminta de sonho, de aventura, de desconhecido, de medo, de fantasia, de salto alto, de cintura desenhada, de maxilar definido.
Eu provoco, eu insinuo, eu fantasio. Eu tenho fome de sensualidade.
Eu amo e me entrego. Pego e deixo. Coloco aquela roupa, pinto os lábios de vermelho, ponho aquele sapato... Pra quê?

Eu tenho desejo.
Eu sou uma mulher, ora bolas! Onde está a sensualidade? Onde está a sutileza de um toque de provocação?

Eu nunca mais vou ter nada disso?

01/07/2008

Ana


Ana, vestida com todas as quinquilharias do meu velho baú de lembranças, tomou conta da minha festa de casamento.

Dançava como se o demônio beijasse a parte interna de suas coxas e rodava ao som de um tambor incediando o chão onde pisava com os pés descalços.

As mulheres queriam tomá-la do meio da roda e seus olhos flamejavam de ira, eu sentia. Os homens também queriam tomá-la, mas de outro jeito. A maneira com que ela sorria com seus dentes de pérola e se contorcia em torno do próprio corpo cheio de curvas... Que devassa! A devassa com que sonhei durante todo esse tempo estava lá, mais uma vez, pra me mostrar como ela podia ter o que quisesse.

Eu, olhando de fora, debaixo da chuva fina, escorada a uma árvore, apenas acompanhava toda aquela sensualidade de longe. Ana podia ter o que quisesse e eu não podia fazer nada, eu era só uma garota perto dela, um ponto branco perto à uma pérola de luz.

Ana pegou um copo de vinho e com as mãos tapadas de terra, derramou o copo inteiro sobre os seios. O vestido pareceu gostar. Grudou-se à pele quente dela querendo fazer parte de todo aquele espetáculo e moldou-se aos passos daquela dança pervertida. Meu corpo também era qunte e eu me senti ruborizar. Os pingos de chuva grudaram meu vestido ao meu corpo também e por um momento eu quis estar lá, de olhos fechados, dançando vulgar, me sentindo uma mulher livre com ela. Eu desejei ter o gosto daquele vinho só mais uma vez.

Minha mãe chorava. E exceto a música, marcado pelos passos da Ana, todo o resto era silêncio.



Ana gargalhava histérica e vulgar. Eu mal respirava.
E decidi naquele momento que não queria mais ser a noiva.

18/06/2008

Dull Flame of desire

Olhei a hora no relógio ao lado da minha cama. Uma e quinze da tarde. Preciso levantar.
E agora? O que há de errado? As coisas estão da forma como você queria que estivessem, não estão? NÃO ESTÃO? Por que isso agora? POR QUE?
A tentação bateu à porta.
Uma doce e suculenta maçã vermelha, tatuada nas costas macias de uma jovem que passou por mim e mal me disse "Olá".
E o perfume dela ficou lá, pra me lembrar de como eu posso ser estúpida e agir por instinto às vezes. Aquele perfume velho conhecido do perigo, do proibido, do denso.
"Like a poison, like an addiction, like me..." ela me sussurou próximo ao ouvido e eu não quis ouvir. Eu apertei os olhos pra chorar, mas não chorei não sei porquê. Eu apenas queria sentir aquela dor macia entre os lábios, a dor morna, lancinante, que me apertou de vez contra seu seio, lá dentro, em mim.
Algumas horas depois eu estava lá de volta, no meu quarto, sozinha, esperando que alguma coisa na atmosfera mudasse. Que alguém me atirasse na cara o que eu não havia coragem de me dizer ao espelho. Alguém pra me puxar pelo braço, pra me sacudir, pra perguntar qual era a minha, pra simplesmente dizer que eu estava errada e que vermelho não era a minha cor favorita coisíssima nenhuma.
"Diz que me ama... Não precisa ser verdade."
Eu devia me atirar de uma ponte ou coisa parecida.